terça-feira, 13 de outubro de 2009

Terceira proposta

I O cinza sabor da felicidade
Sob o entardecer chuvoso e frio, ela derrama lágrimas doces. Observa, da janela de seu apartamento no trigésimo sexto andar, o intenso movimento de carros na avenida molhada. Os céus também têm inundados os olhos assim como ela.
Após um tempo que pareceu intranscorrível, ela pranteando sorri. Gargalha. Seu filho está chegando finalmente; a bênção dos deuses.
Usa calça preta , tênis e blusa branca. Rabo de cavalo. É uma professora de trinta e três. Logo seu marido chegará e ela dividirá com ele a euforia que sente.
Lá fora o dia termina, a chuva não. Um cinza cada vez mais escuro paira no ar cada vez mais úmido. No entanto, nada pode alterar sua alegria. Imagina-se com vestidos folgados e jardineiras, a barriga aparecendo.
Realizará o seu grande sonho de ser mãe. Educará com carinho e amor a criança. No frio entardecer chuvoso ela vê o começo de uma página em branco totalmente promissora.
II Um peito cheio de toda dor do mundo
Sentado numa cadeira de praia na grama, ele observa o sol desaparecer lentamente atrás do pinheiros. O céu tem uma coloração intensa, há nuvens de um vibrante tom cor-de-rosa. Pássaros cantam na mata próxima. Insetos não o incomodam.
Seria adoravelmente bom se tudo fosse lindo e feliz como o sol poente. Amargas lágrimas descem por seu rosto até disputarem espaço com a barba está por fazer há três ou quatro dias. Seu peito está repleto de remorso, e dói. Ele perdeu seu bebê e sua mulher num acidente de carro. Motorista bêbado na outra pista. Sua esposa estava grávida havia oito meses, usava uma jardineira feia da qual gostava muito. Os dois morreram, ele quase.
Agora em seu gramado, sob a penumbra dos alto pinheiros, ele chora suas mágoas. Amava-a mais que pudesse imaginar. Era um casal afinadíssimo. Tinha planos e projetos, metas traçadas e objetivos frustrados agora. O suicídio de novo lhe vem à mente. Dessa vez mais forte e mais perto. Ele não sabe o que fazer ou para onde correr. Não tem "saco" para o trabalho. Era um ótimo escritor, mas agora...
Ele é a melancolia personificada. Seus tristes olhos vermelhos tentam se secar, porém as lágrimas voltam e apenas alimentam seu sofrimento. A noite chega, e traz consigo mais infelicidade ao recente viúvo que não pôde ver nascer seu primeiro filho. Com as estrelas, a redonda lua surge no horizonte e lembra-o da avantajada barriga da esposa. Uma profunda dor o acompanha. Dias que parecerão sempre iguais. Pensa na pistola, de novo e de novo.
Por Jairo Santiago.

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