segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A última rua


– Vejo você amanhã então. Boa noite, amor.
– Durma com Deus, meu anjo.
– Você também.
Abraçados, ela sentia o calor do seu corpo e ele a maciez e o perfume dela. Depois de uma aula típica na universidade, ele a deixava em casa e caminhava para a sua. Moravam relativamente próximos, uma caminhada de quinze minutos e ele já estaria em casa, mais dez e provavelmente estaria já dormindo. Namoravam há um bom tempo, o suficiente para pensarem em dar um passo maior na relação. Ele andava pelas calçadas e refletia o quanto gostava dela, e talvez fosse ela quem o destino escolheu para lhe dar filhos, se ele os tivesse, é claro. Imaginava o sorriso encantador e o olhar melancólico dela. Ele adorava isso nas pessoas, principalmente nas crianças. Um olhar triste e carregado de melancolia era o que o atraía. Se existisse um certo brilho depressivo então... Ah, era perfeito. Mas enquanto divagava sobre as coisas da sua imaginação ele apenas caminhava para casa, de mochila nas costas e mãos no bolso.
Era princípio de madrugada e o céu estava vermelho. Não porque fosse natural, mas sim porque chovia como em qualquer dia de novembro. Caía uma fina chuva e o nosso rapaz estava quase ensopado. Os cabelos lhe caíam na testa, no entanto ele parecia não notar. Não tinha nenhum carro na rua. Não tinha nenhum animal na rua. Não tinha nada, só a chuva, a escuridão e ele. Raramente um cão latia ao longe. Ele, absorto em pensamentos, não ouvia.
Os postes de iluminação lançavam uma luz amarela e encardida. A sombra dele crescia até ser substituída por outra, à luz encardida do poste da frente. Ele andava quase no meio da rua. Usava calça jeans e camiseta preta. Tinha uma pulseirinha no pulso esquerdo e uma tatuagem no braço direito. Era um aluno entre médio e bom; sabia que podia ser melhor, mas se empenhava pouco. As árvores que o acompanhavam tinham folhas verdes e novas, brotos em todas elas. Sempre fora solitário e se sentia melhor assim. Não gostava de festas, nem mesmo da família – aliás, família era algo totalmente repulsivo. Sentia-se bem lendo, tocando sua guitarra, ouvindo música ou quando estava junto dela. Ela o incendiava o meio e congelava as extremidades. Ela o domava, simplesmente.
Já se passaram nove ou dez minutos, faltam seis quarteirões até a rua dele. Ele andava rápido. Estava na última rua do bairro. De um lado ficavam os fundos das casas – quando existiam – e terrenos baldios, do outro lado apenas uma mata e mais além, um córrego. A rua é íngreme e ele subia sem esforço. Talvez seu caderno estivesse molhado, talvez não, mas ele estava totalmente. Até as meias. Escutou alguns latidos, mas a sensação que se tinha é que tudo estava parado como se até a respiração exalada permanecesse no ar, exatamente à frente do rosto. Apenas chovia, nenhum outro movimento de coisa alguma, nenhuma folha, nenhum inseto, nem o canto de nenhum grilo ou o coaxar de nenhum sapo. É estranho, como se houvesse apenas a chuva e ele. E os latidos.
É incrível como estão altos agora e parecem perto. Assustadoramente perto. Uma sensação esquisita se apodera dele, seria melhor se desse a volta e andasse algumas quadras a mais. Perderia uns cinco minutos, mas ficaria longe da mata e perto da civilização. Estaria na rua principal e certamente passaria um carro ou haveria luz nalguma janela, ou alguém espirraria ou tossiria. E não haveria a incômoda sensação de que o mundo parou. Os latidos aumentam, de frequência e de proximidade. Ele percebe então que é a causa da inquietação canina. Percebe também que são quatro diferentes cães que latem.
Ele sente o gosto do medo. Sabe que alguns animais conseguem sentir o cheiro do medo de outros animais, e é quando atacam. Ele não sabe se será atacado, não sabe a que distância estão. Sabe que estão perto e que o planeta parou de girar, que tudo está muito esquisito e que está com muito medo. Sente o medo esvair através da respiração e do suor. Então, para piorar um pouco, ele vê a uns cinco metros uma cabeça canina saindo do mato. O corpo que a acompanha é marrom-terra, sujo e cheio de carrapichos. Os pelos estão eriçados e os olhos do cachorro brilham de uma maneira mortal. Um brilho vermelho capaz de amedrontar até o Rei Arthur. Nosso rapaz caminha de cabeça baixa. Vê outros cães junto ao primeiro. Tenta caminhar indiferente, mas suas mãos tremem nos bolsos.
Os cães saem do mato e se aproximam do estudante. Quatro cães famintos. Não com fome de comida, mas uma fome diferente, fruto somente do ímpeto assassino de matar. Os cães o cercam e, gradativamente, vão fechando o círculo. O rapaz caminha de cabeça baixa, mas, assustado, vê os cães chegando. São dois pretos, um amarelo e o primeiro. Ele continua caminhando, pois sabe que se parar será um alvo fácil. Os cães parecem loucos. Têm olhos vermelhos e babam. Latem furiosamente, e o som é quase o barulho do inferno. Setenta ou oitenta centímetros de máquina assassina de comer carne de garoto-estudante-rebelde. Os cães se aproximam mais. Estão a uns dois metros dele e a fúria contida nos olhos caninos pode incinerar o pólo sul. O jovem olha em busca de ajuda, contudo sabe que não há ninguém ali. Sabe que vai morrer, que vai querer morrer antes da primeira mordida. Sabe que pode ter sido o último beijo em sua garota o de doze minutos atrás. Sabe também que não há Cristo capaz de afugentar esses diabos. À direita não há nada. Óbvio. À esquerda tamb... Não, espera! Há uma coisa.
Ele vê uma criança no local onde saíram os cães. Sim, é uma criança. Deve ter cinco ou seis anos. Cabelo preto e emaranhado que lhe cai sobre o ombro. Camiseta do Mickey. Está no mato, imóvel. Exatamente à esquerda do rapaz. Existe algo muito incoerente no menino: seus olhos não possuem córneas ou íris ou nada além de um grande globo ocular branco. O rosto é inexpressivo. Totalmente inexpressivo.
No momento em que o estudante vê o menino, o cão mais perto está a menos de um metro dele. O menino grita algo inaudível. Não faz nenhum movimento, somente abre a boca de dentes de leite e grita um rosnado impossível de se imaginar. É uma ordem. O cão mais próximo ataca o jovem.
O rapaz, olhando a criança no mato, percebe a aproximação dos cães, mas sente que de nada adiantaria correr. Seu fim está escrito, e é a morte sob quatro pares de olhos rubros e um cego e leitoso. Imagina-se num mundo de fantasias enquanto observa o menino, e quando ele grita a ordem de ataque o rapaz já não pensa em mais nada.
O primeiro cão visto é também o primeiro que o ataca. Tenta morder a perna do jovem abaixo e atrás do joelho, mas o estudante cheio de vitalidade está correndo. Corre como o cão da cruz. Corre dos cães, sua cruz. Corre como se calçasse as sandálias aladas de Hermes. Não pensa em nada. Não vê nada e não escuta nada. Os quatro cães estão em seu encalço a um palmo do seu calcanhar, e ele corre. Corre instintivamente para garantir a sobrevivência. Corre desesperado.
Após uns vinte metros de corrida ele olha para o lado e vê, exatamente à sua esquerda, o menino de cabelo emaranhado e camiseta do Mickey. A angústia do rapaz é tão grande que sente o gosto de sangue. Então entende o que já sabia. Não são cães normais e não é uma criança normal. São ilusões reais de uma dimensão paralela ou qualquer outra idiotice. Entende também que se quiser ter sua vida de volta, a mesma vida que está na mão do pirralho e na boca desses cães filhos da puta, terá que lutar.
Enche seu peito de ar, de coragem e de força, e para de correr virando para trás e ficando de frente para os perseguidores. Emite um rugido bestial e, com os braços, imita a pose de um halterofilista exibindo seus músculos. Os cães param e começam a correr de volta para o mato. O rapaz-besta corre atrás e, ainda com sua voz gutural de cantor de trash-metal, grita aos cães para esperarem que já os alcança. Eles não esperam, é claro. Quem tem agora dois rubis nos olhos é o nosso estudante. Ele então começa a recuperar o controle de si. Sente que não era ele quando perseguiu os cães. Vira e continua a caminhada para casa. Chove forte agora. O caderno certamente molhou, mas o fim de ano não tarda mesmo. Ele lembra do que acabou de acontecer como se visse num filme, porém cospe sangue, mordeu a língua na perseguição aos cães.
Sob um céu vermelho e choroso o rapaz caminha para casa. Está a uns quatro quarteirões

agora.

Por Jairo Santiago.

3 comentários:

  1. Mas báh! Tava mexendo nos arquivos do meu blog e achei uns comentários seus. Me deu até saudade da época em que postava e a galera lia. hahahaha

    =*

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  2. O pior é que eu descobri que eu não fui otária e por isso resolvi voltar.
    Final de março estarei pisando em terras rioverdenses!
    Que bom que você voltou a ler... Volte a escrever tbm, pois seus textos são muito bons! ^^

    Beijoo!
    =**

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  3. Espero que a minha tentativa de estímulo sirva de alguma coisa e você realmente volte a escrever nesse blog paradão! hahaha
    Então, quanto a nos encontrarmos, provavelmente nos veremos num certo bar de Rock - único aliás - em Rio Verde. Você sabe qual! ;)
    E continuemos por aqui também. É sempre bom ler algum comentário mesmo que não seja sobre o post relacionado.

    beijo!
    =*

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