terça-feira, 13 de outubro de 2009

Um doce dia com Susan


Ela há muito deixara de se importar com as loucas discussões com a mãe. Órfã de pai, sempre fora geniosa e solitária; por não se dar muito bem com sua mãe e por ser filha única também.
Dezessete anos, algum juízo, um pouco de inteligência e muita teimosia. Podemos chamar de rebeldia se preferir. Ótimas notas na escola, mas em casa um deplorável comportamento infantil. Usava seu cabelo num tom que de tão loiro era quase branco. As roupas pretas e acessórios de couro não a abandonavam nunca. Não era vulgar, mas estranha era sem dúvida. Buscava talvez atenção, já que sua genitora trabalhava muito e era ausente na educação e no cotidiano da filha?!
A mãe não era das melhores, garanto. Divertia-se - e não somente isso - com homens desconhecidos e quase nunca estava em casa; eventualmente encontrava a filha e a "sessão discórdia" recomeçava.
Quando estava em casa, era no quarto que Susan buscava refúgio. Ouvia a todo volume os refrões melódicos e repetitivos do Kurt, também gostava da interessante mistura dos escandinavos Nightwish, o metal sinfônico. Esta era a sua maneira de fugir, mesmo que brevemente, dos muitos problemas.
Sua mãe queria que ela fosse "apenas uma filha como outra qualquer", e que não ficasse até tão tarde na rua. Mas Susan sabia se cuidar, e a maior parte do comportamento hostil era apenas implicância. Ela não era de todo má ou infantil, só quando sua mãe estava por perto. Sempre se colocava entre as melhores notas, e apesar de esquisita mantinha boas relações com quase todos na sala de aula.
Gostava das festas de rock dos fins de semana. Às vezes curtia marijuana ou outra porcaria qualquer, apenas para relaxar. As dificuldades que a sufocavam se esvaíam com a fumaça. A monotonia da cidade grande e do terceiro milênio não a incomodava, mas sim a de uma grande casa vazia.
Enquanto paramos por aqui e rapidamente tomamos um copo com água pela metade, alguns meses voam no mundo de Susan. Depois de uma definitiva e mútua agressão verbal, e física posteriormente, ela finalmente saiu da presença da mãe. Trabalhava há algum tempo e tinha umas economias mirradas.
Ela, que já havia beijado homens e mulheres, encontrou não um príncipe encantado, mas um alto e bonito rapaz que tinha um senso de humor quase irreal. O casamento foi marcado para o ano seguinte, porém já dividem os lençóis e o potinho de escovas de dente. E daí? A mãe talvez irá, ou talvez estará ocupada com um homem qualquer.
Susan tem uma vida de sonhos e projetos agora. Sente menos falta do pai e nenhuma da mãe. Seu namorado é gentil e sensível, e sua atenção e carinho a faz sentir-se importante e desejada. Agora seu cabelo é castanho, a cor natural. Ainda ouve músicas de compassos acelerados e guitarras pesadas e distorcidas de antigamente, afinal não há mal nenhum num pouco do bom e velho rock and roll.
Os planos dela são interessantes e ocupam sua cabeça. Ela não tem raiva da mãe; também não tem interesse algum. Mas agora tudo vai bem, e o juízo e responsabilidade de Susan nunca estiveram tão afiados. Estão muito felizes, os pombinhos enamorados, e talvez nada estrague a momentânea felicidade dos dois.
Por Jairo Santiago.

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